Duas notícias em uma mesma semana ajudam a explicar muito do que acontece dentro e fora de campo no Corinthians.
A primeira foi o pênalti desperdiçado por Memphis Depay, que sequer conseguiu acertar o gol em um momento decisivo. A segunda envolve o presidente do clube, Osmar Stabile, que passou a responder a uma acusação formal do Ministério Público relacionada ao uso de recursos do Corinthians.
Ser jornalista de verdade não é tarefa simples. Talvez por isso eu tenha criado este espaço, o “Eu Por Mim”, onde posso expressar opiniões sem misturá-las ao meu trabalho profissional. Quem vive o jornalismo aprende desde cedo a observar os fatos sem paixões. Mas também sou corintiano, e isso não me impede de torcer, sofrer e, principalmente, enxergar a realidade.
Na noite desta quarta-feira, acompanhei mais uma partida que resumiu o atual momento do clube. Dentro de campo, um time limitado, sem identidade e muito distante da grandeza de sua história. No fim, a oportunidade improvável surgiu nos acréscimos. Era a chance de mudar o rumo do jogo, aliviar a pressão e reacender a esperança.
Mas Memphis Depay mandou a bola para fora. Nem entre as traves ela passou (7,32m de largura por 2,44 metros de altura).
O erro do atacante foi apenas o capítulo final de uma história muito maior.
Clube de futebol não é órgão público
O presidente do Corinthians iniciou a semana sendo formalmente acusado pela Promotoria de Justiça Criminal por suposta apropriação indébita. Segundo a acusação, recursos do clube teriam sido utilizados para custear uma empresa de segurança privada que prestaria serviços de interesse pessoal do dirigente e de familiares.
Sem entrar no mérito da acusação, que deve ser analisada pela Justiça, o episódio reforça uma discussão antiga: a forma como muitos clubes brasileiros são administrados.
Em diversas instituições esportivas, dirigentes se comportam como proprietários de algo que pertence à coletividade. Beneficiam-se da visibilidade, do prestígio e da paixão da torcida quando os resultados aparecem. Quando surgem os problemas, a responsabilidade costuma ser diluída em discursos, justificativas e disputas políticas internas.
O Corinthians não é uma empresa privada de um grupo de acionistas nem um patrimônio particular de seus dirigentes. É uma instituição sustentada por milhões de torcedores. Ainda assim, muitas vezes é administrado como se fosse um feudo político.
A crise nasce em quem a produz
Na verdade, não sonho ser presidente do Corinthians. Não sou dirigente e provavelmente não teria paciência para lidar com um estatuto ultrapassado, marcado por disputas internas e mecanismos que dificultam a participação efetiva do torcedor comum.
Mas o problema vai além do futebol.
Existe uma semelhança preocupante entre a política dos clubes e a política do país. Em ambos os casos, muitas pessoas escolhem lideranças movidas mais por identificação emocional, grupos de interesse ou fidelidade a correntes específicas do que pela análise dos resultados concretos.
Quando isso acontece, a cobrança diminui e a gestão perde qualidade.
Se Memphis converte aquele pênalti, talvez o ambiente político no Corinthians estivesse hoje menos pressionado. O presidente respiraria mais aliviado. As críticas seriam amenizadas. Os problemas estruturais continuariam existindo, mas ficariam temporariamente escondidos atrás de um resultado esportivo.
O problema é que a bola foi para fora.
E, às vezes, o futebol tem essa capacidade rara de revelar aquilo que muitos tentam esconder. O pênalti perdido expôs não apenas a falha individual de um jogador contratado por valores milionários. Expôs também um modelo de gestão que coleciona apostas caras, resultados modestos e uma distância crescente entre quem administra o clube e quem realmente o sustenta.
O erro de Memphis não criou a crise do Corinthians.
Apenas iluminou, por alguns segundos, a origem dela.